quarta-feira, 28 de julho de 2021

07 de setembro de 2020

 Sonho viajando. Vejo estrada. Asfalto. 

Vejo o mar. Sonho que estou em Macarani, numa mesa com J. e uma amiga. Falamos de política. Vejo patos.

Natureza. Ainda o amo. Sei que será pai pela terceira vez. 

Noite anterior sonho com um poço. Azul. Como o poço azul da Chapada Diamantina.

Bons presságios. 

O poço que fui com ele em novembro de 2018, em uma viagem que nos tirou do eixo, vivemos a magia. Lembro como se fosse agora, o guia mostrando um espaço entre pedras, que os turistas podem tirar foto. Ele ficou atrás de mim, sentia seu calor, suas mãos em volta de mim, como uma proteção para que eu não escorregasse e caísse... E se eu caísse, mais de sessenta metros de profundidade. Seria a metáfora do que eu viveria um mês depois, afogamento. O poço como um sinal sobre esse amor que nunca me deu segurança. Ele era a projeção do meu pai, que logo eu me separaria, também. 

Nessa viagem, fomos ao Poço azul, ao Poço encantado, a Igatu, ao Olho d'água, nesse dia. Nos dias anteriores, Cachoeira do buracão. O tempo nos oportunizou uma distensão. Era só ele ali, sem medo, sem armadilha, sem vícios, sem álcool. Fizemos amor no banho, aproveitando que estávamos dividindo o quarto com Berenice, sua amiga política. A Chapada é realmente mágica. Há muita coisa que ainda viverei por lá, tenho certeza. 

06 de setembro de 2020

 Cartas para Anaïs Nin.

Carta dançada I.

Querida Anaïs, 

Minha boca enche de água para iniciar essa carta com um mon amour... Como você sempre me deixa a la vonté, eu vou fazer isso, então.

Mon amour, ma cherie

Falo de um outro tempo. A linguagem que utilizo com você pode ser ectoplasmática, pode ser virtual, digital, pode ser espaço além-tempo, dimensões que não consigo nunca explicar ou compreender, mas eu sinto tanto você em mim, em muitas mulheres que convivo. Sinto você nos homens também. Sinto você nos corpos falantes, em todo sujeito desejante. 

Falo de um tempo em que nós mulheres, enquanto categoria, ou melhor indicando: o corpo falante que se reconhece mulher pode narrar seu lugar de desejo, que aí no seu tempo, engolia e tinha de vivenciá-lo em gavetas, doenças, em experiências traumáticas e no aprisionamento das relações. Agora a ficção é outra. O inimigo apresenta outra máscara social, agora. 

Falo de um tempo em que a arte nos possibilita ir além do perigo em reconhecermos atuantes e políticos porque pensamos e comunicamos, é além agora. Falo de um tempo em que o vazio torna-se cada vez mais insuportável. 

Eu pensei que essa seria uma carta com conteúdo erótico para você. Sim, eu me apaixonei por você, ou pela mulher em mim ao ler você. 

O amor romântico que identifico em seus diários são manifestação de uma força regeneradora, um movimento, uma pulsão, uma vontade de viver. Tesão. Sensualidade. Não dá mesmo para ser alguma coisa se não há centelha nenhuma sequer dessa fonte.

Admiro sua coragem. Encanto-me com sua fé nesse amor que se aquece com paixão e com amizade. Inspiro-me com sua caminhada. Invejo sua persistência, sou mais teimosa, deixo o medo invadir minha casa. Você acompanha os fluxos, permite a potencialidade do acaso. Você dança, eu assisto. Você conjura, eu a aplaudo. 

05 de setembro de 2020

 Anaïs exalta tanto seu amor (platônico) por Henry Miller, que estou pensando em tornar esse desejo uma performance. 

Ler Anaïs Nin, em tempos de pandemia, e em "tempos de cólera" no isolamento é uma experiência de fato a temporal. Falamos tanto em metodologia da pesquisa sobre o olhar anacrônico, sobre sua escrita atemporal. Sim, porque não importa a época, seus desejos são os motes de sua autoficção. De sua autobiografia. Ainda assim é sobre aqui e agora, sua coragem para narrar esses desejos, sua persistência em acreditar no amor romântico. Não sei se o amor romântico está morto. 

Assistindo a um vídeo sobre o amor romântico, apresentado por alguma psicanalista em algum canal no Youtube, essa defende sua morte. Não acho que tenha morrido, acho que esteja se configurando em outros modos de viver. Será o amor romântico um saber de crença? Ancestral e líquido. Mais do que líquido; plasma. Não se pode atravessar, ele nos atravessa. Não o vemos, ele nos escolhe. Como um estado. 

Penso no solo. "Cartas para Anaïs Nin"

Direção: Eu mesma. Emanuelle Nascimento 

Cenário: Dentro de casa. (Poderia ser um evento, site specific, performance de apartamento)

A metodologia da sala de ensaio: Dança-teatro; Teatro Físico. Brincar com a arquitetura do cômodo que eu escolher. A poética do espaço toda dirigida para esse amor romântico que construímos em nossa psique. Amor romântico é arquétipo. É o que dá gás. Movimento. Romantizamos nosso trabalho, romantizamos nossas relações. Quem não encontra esse norte cai em um processo de apatia. 




07 de setembro de 2020

 Sonho viajando. Vejo estrada. Asfalto.  Vejo o mar. Sonho que estou em Macarani, numa mesa com J. e uma amiga. Falamos de política. Vejo pa...