Cartas para Anaïs Nin.
Carta dançada I.
Querida Anaïs,
Minha boca enche de água para iniciar essa carta com um mon amour... Como você sempre me deixa a la vonté, eu vou fazer isso, então.
Mon amour, ma cherie.
Falo de um outro tempo. A linguagem que utilizo com você pode ser ectoplasmática, pode ser virtual, digital, pode ser espaço além-tempo, dimensões que não consigo nunca explicar ou compreender, mas eu sinto tanto você em mim, em muitas mulheres que convivo. Sinto você nos homens também. Sinto você nos corpos falantes, em todo sujeito desejante.
Falo de um tempo em que nós mulheres, enquanto categoria, ou melhor indicando: o corpo falante que se reconhece mulher pode narrar seu lugar de desejo, que aí no seu tempo, engolia e tinha de vivenciá-lo em gavetas, doenças, em experiências traumáticas e no aprisionamento das relações. Agora a ficção é outra. O inimigo apresenta outra máscara social, agora.
Falo de um tempo em que a arte nos possibilita ir além do perigo em reconhecermos atuantes e políticos porque pensamos e comunicamos, é além agora. Falo de um tempo em que o vazio torna-se cada vez mais insuportável.
Eu pensei que essa seria uma carta com conteúdo erótico para você. Sim, eu me apaixonei por você, ou pela mulher em mim ao ler você.
O amor romântico que identifico em seus diários são manifestação de uma força regeneradora, um movimento, uma pulsão, uma vontade de viver. Tesão. Sensualidade. Não dá mesmo para ser alguma coisa se não há centelha nenhuma sequer dessa fonte.
Admiro sua coragem. Encanto-me com sua fé nesse amor que se aquece com paixão e com amizade. Inspiro-me com sua caminhada. Invejo sua persistência, sou mais teimosa, deixo o medo invadir minha casa. Você acompanha os fluxos, permite a potencialidade do acaso. Você dança, eu assisto. Você conjura, eu a aplaudo.
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